San Millán de la Cogolla – Monastério de Yuso

San Millán de la Cogolla é um município da região de La Rioja na Espanha, conhecido pelos famosos Monastérios de Suso e Yuso. Que são de grande importância artística e cultural considerados o berço da língua castelhana e em 1997 foram reconhecidos como patrimônio da humanidade pela UNESCO.

O primeiro monastério, Suso (que em castelhano antigo significava “acima”), permanece fiel à tradição. O segundo, Yuso (“abaixo” em castelhano antigo) foi praticamente reconstruído entre os séculos XVI e XVII em novo estilo e desde 1878 está habitado por frades Agostinianos Recoletos.

Como não conheci o monastério de Suso, vou me ater ao de Yuso onde fizemos a visita guiada. A guia que nos atendeu é historiadora e foi super atenciosa. Dentre outras coisas, nos contou sobre a lenda da origem desse monastério, que é a seguinte: 

O Rei de Nájera ordenou que levassem os restos mortais do Santo Millán que estavam no monastério de Suso, para o monastério de Santa Maria la Real em Nájera. Assim, colocaram o caixão numa espécie de carroça puxada por bois e, durante o trajeto, logo após a descida os bois que carregavam o caixão e até mesmo as pessoas que faziam parte da comitiva do rei, ao chegarem ao vale não conseguiam se mover, como se estivessem presas ao chão. O que foi interpretado como a vontade do santo de não abandonar o vale. E diante desse “sinal divino”, o Rei D. García ordenou que construíssem naquele local outro monastério o qual chamou Yuso (por estar localizado embaixo) para contrastar com o de cima (Suso).

O portal de acesso ao monastério em estilo barroco é obra do arquiteto Pablo Basave e do escultor Diego de Lizarraga. Foi terminado em 1665 e tem um relevo de San Millán num cavalo, imitando a tela do retábulo principal da igreja. 

Portal de acesso ao monastério de Yuso

Salão dos Reis

Passando o portal, fica o hall que é muito bonito também e nos leva ao Salão dos Reis, chamado assim pelos quatro grandes quadros dos reis benfeitores do monastério. Nesse salão fica a Escadaria Real com os  escudos de Castela e da Abadia, datados de 1697. Logo na entrada do salão fica o busto da Rainha Isabel, conhecida como Isabel a católica. Em seguida temos as maquetes dos dois monastérios, placas comemorativas do milenário da língua castelhana e basca. Ao centro está uma edição fac-símile do Códice 60, das Glosas Emilianenses, as primeiras frases em castelhano, obra do poeta Gonzalo de Berceo.

Escalera Real, última grande construção dos abades beneditinos.

Claustro e Igreja

Entrada do claustro

O claustro (galeria com colunas em torno de um jardim ou pátio interior) é belíssimo! Apesar de suas abóbadas serem góticas, a concepção é renascentista. Na sequência fica a igreja, primeira construção do conjunto do monastério que levou cerca de 36 anos para ficar pronta. Fiquei encantada com os detalhes da porta de entrada, do retábulo sobre o altar e com o “olho” pelo qual passa a luz equinocial.

Retábulo do altar principal contendo telas que representam entre outras coisas, San Millán a cavalo na batalha de Hacinas.

Luz Equinocial

“Olho equinocial”pelo qual passa a luz solar durante o equinócio (Visto pela porta de entrada saindo do altar principal)

No início da primavera e do outono, períodos em que o sol se projeta diretamente sobre a linha do equador fazendo com que o dia e a noite tenham a mesma duração (equinócios), são considerados os melhores momentos para fixar pontos cardeais. Nesses dias, por volta de 18h15 no monastério de Yuso se pode ver um círculo perfeito de luz solar sobre o corpo central do templo. Por alguns minutos apenas o raio de luz entra pela rosácea da parte de trás da igreja e passa pelo círculo (alguns chamam de “olho equinocial”) que está no centro geométrico da igreja, com isso marca o eixo e se tem a orientação perfeita do altar voltado para o leste. 

“Olho equinocial” visto de frente e o púlpito de nogueira, considerado uma das jóias do monastério, decorado com relevos dos evangelistas e símbolos da paixão.

Sacristia

Afrescos feitos no teto no séc. XVIII

Outro local que chama a atenção pelos afrescos no teto do séc. XVIII que estão muito bem conservados com suas cores originais é a sacristia, uma das mais belas da Espanha. Nela também permanecem grandes telas que foram trazidas de Nápoles e duas enormes mesas que, segundo a guia, pesam 500kg cada.

Museu

Passamos por uma galeria com várias pinturas antigas e fotografias de diversas épocas do monastério e dos monges que ali viveram. Vimos muitas obras importantes e de grande valor histórico, entre elas, no pequeno museu se destacam as duas arcas relicários de San Millán e de San Felices, obras-primas da arte romântica trabalhadas em marfim. Uma arca é do séc. XI (San Millán) e a outra do sec. XII (San Felices), antigamente continham 34 placas de marfim, ouro e pedras preciosas, mas hoje só restam 24 placas de marfim.

Arcas de San Millán e San Felices

Ambas se conservaram até o séc. XIX quando as tropas de Napoleão arrancaram o ouro e as pedras preciosas, deixando as peças em péssimo estado. Além disso, a saída dos monges do monastério favoreceu o roubo das placas. Algumas reapareceram em coleções em San Petersburgo, Berlim, Florência, Washington e Nova York. Em Yuso hoje restam na arca do séc. XI, 14 placas de marfim que narram a vida de San Millán e duas sobre a vida do abade Dom Blas e do escrivão Dom Múnio. Na arca do séc. XII restam 4 placas sobre a vida de San Felices. As histórias eram desenhadas nas placas para que os monges pudessem contá-las através das imagens aos peregrinos e ao povo em geral que não sabia ler naquela época. 

Biblioteca

Fiquei impressionada com a sala de códices e livros de canto do séc. XVII, com vários livros enormes feitos à mão que chegam à pesar 60kg. A guia nos informou que esses livros levaram em média 4 anos para ficarem prontos, utilizaram pergaminhos feitos de pele de vaca e para escrever usavam plumas e também pequenas “canaletas” feitas de madeira. As tintas eram feitas com vinho, pós de folhas e de outros produtos naturais. Os textos foram escritos em latim e cantos gregorianos. 

A biblioteca em estilo veneziano foi construída em 1780. Tudo é mantido da mesma forma, não possui sequer energia elétrica e permanece com a mesma disposição até hoje. Contudo, esteve praticamente vazia na época em que os monges beneditinos foram embora e o monastério ficou abandonado entre 1835 e 1878, quando os monges agostinianos recoletos se instalaram no local. Coube a eles recuperarem os livros que estavam espalhados entre os povoados vizinhos. Conseguiram recuperar mais de oitenta por cento da biblioteca original e, graças a isso, hoje contam com uma verdadeira riqueza de livros antigos.

A Fundación San Millán de la Cogolla realizou o excelente trabalho de digitalizar a maioria dos livros e os disponibiliza ao público através do site: https://www.fsanmillan.es/biblioteca. Nesse site também encontramos muitas informações interessantes sobre a fundação, os monastérios e notícias atuais da região.

Valores e Horários das visitas ao monastério de Yuso:

As visitas são guiadas e duram em média 50 minutos cada.  As visitações tem horários, que variam entre as épocas do ano, em caso de grupos com mais de 20 pessoas é necessário fazer reserva. Tem estacionamento gratuito e um restaurante em frente ao monastério de Yuso.

Valores: 

  • 7,00 € – adultos 
  • 5,00 € Idosos
  • 3,00 € De 7 a 15 anos 
  • Grátis para menores de 7 anos.
  • 4,50 € Grupos com mais de 20 pessoas.

Horários de Verão (Entre a Semana Santa e o mês de setembro):

  • De terça à domingo – de 10h às 13h30 e de 16h às 18h30
  • omente no mês de agosto eles abrem às segundas-feiras.

Horário de Inverno (Entre outubro e a Semana Santa):

  • De terça à sábado – de 10h às 13h e de 15h30 às 17h30
  • Domingos: Somente na parte da manhã

Lembrando que os monastérios fecham nas seguintes datas: 

  • 01, 05 e 06 de janeiro, 09 de junho, 28 de agosto, 12 de novembro, 24, 25 e 31 de dezembro.

Quanto ao monastério de Suso, o acesso é restrito para manterem a conservação natural do local. Dessa forma, não é permitida a entrada de veículos privados, usa-se o ônibus oficial que sai do estacionamento da central de reservas, que fica no monastério Yuso. O valor da visita em geral é 4 €, sendo necessário reserva, que é feita através do telefone: +34 941 373 082

Vista lateral do monastério de YUSO

6 thoughts on “San Millán de la Cogolla – Monastério de Yuso

  1. Quanta riqueza de detalhes possui o Monastério! Fico imaginando como seria o cotidiano das pessoas que nele viveram, no auge de seu funcionamento.

    1. Oi Leandro, que bom ter você aqui… Verdade, são muitos detalhes e muita história. Fiquei impressionada com o monastério! Abraços!!! ?☺️

    1. A biblioteca também foi o lugar que mais me chamou a atenção, uma riqueza de informações e história, muito bacana! Bem-vinda ao blog Ju!!!??

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